PRÓLOGO
Caía a tarde densa, lenta, de trás de mim, no acelerar do ônibus. A avenida cintilava carros que cintilavam o furor da velocidade. Os dias de trabalho levam as pessoas ao suicídio involuntário: tentando escapar da chefe, da empresa, do que restou no caixa, do que resto no escritório, do que será amanhã - qualquer um senta-se em seu e liga-o, sem antes colocar o cinto, e liga o som, aumenta o volume e prepara-se para a longa viagem de volta pra casa. Em velocidade.
Essa história, não é mais do que uma outra história sobre uma mulher. Uma mulher que não conheci, uma mulher que assaltou de minha visão, tirou os olhos dos carros apressados às seis da tarde e os colocou em sua direção. O nome da mulher é Maria. Como não seria? E essa não é mais do que uma outra história sobre uma mulher.
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Poucas pessoas sabem identificar loucura. Eu sou uma delas. Trabalhei por anos num manicômio, dando remédio aos internos, convivendo com alguns casos sérios, escutando as mágoas de qualquer um e, vez ou outra, descobrindo um artista. Desses pintores, pretensos cantores, músicos, poetas, recitadores, paquerados e uma infinidade de mestres na arte de surpreender. Foi uma pena ter saído daquele lugar, às vezes, quando penso por esse lado.
O manicômio iria acabar. Todos sabiam. A maioria, ou seja, aqueles que não tinham parentes internados lá dentro, pediu demissão e partiram para viver de qualquer outra coisa que tivesse a ver com a enfermaria. Alguns, os free-lancers naturais da vida, mudaram completamente de profissão. Carlinhos se tornou chef, Rebeca caminhoneira e Eduardo passou num concurso público. Posso explicar-lhes que não apenas essas pessoas trabalhavam no manicômio, contudo, para mim, elas eram as que importavam. De fato, meus amigos. Únicos quase.
O nome do manicômio era Dr. Roberto Filho. Em homenagem ao deputado Roberto Filho que milagrosamente, após anos de luta contra a loucura, conseguiu curar seu pai de uma moléstia. O que lhe rendeu muitos votos dada a popularidade do assunto e a dimensão explorada pelos jornais e revistas que circulam aqui em Jacarezinho. Eleito deputado, Roberto Filho tratou de erguer vários monumentos em seu nome e se tornar uma herói incrível da história do Espírito Santo - essa gente esquecida na costa brasileira.