Nunca tive particular dificuldade em deparar-me com uma página em branco. Pelo contrário: apetece-me logo escrevinhar qualquer coisa, fazer um qualquer sarrabisco, um desenho mal amanhado, um pensamento...
A minha dificuldade, aliás, é outra, prende-se mais com a dificuldade em expressar de forma capaz tudo aquilo que cá por dentro se vai agitando em cada momento.
Se matéria para escrever não falta, o mesmo já não pode ser dito em termos de coerência. Frequentemente escrevo sem pensar muito - tal como tudo o que de melhor faço na vida - sem mastigar, fazendo da minha cabeça não mais que uma mera caixa de ressonância onde nada é produzido e que outro papel não tem senão o de ser ponto de passagem da alma,que é onde tudo verdadeiramente acontece.
O curioso é que isto mesmo que eu acabei de escrever, sendo absolutamente verdade nesta altura - na escrita, pelo menos na escrita, não costumo mentir - pode ser absolutamente desmentido numa qualquer outra altura. Basta que esteja com uma outra disposição, que tenha acordado para outro lado, ou que me sinta verdadeiramente entusiasmado pela cor do céu. Ou por um sorriso.
Esta minha proverbial falta de consistência - de rumo? - já me meteu em trabalhos por algumas vezes. Até porque, para a compensar, escolhi para amar uma mulher extraordinária, com enormes capacidades, com enormes certezas de vida, e com enorme dificuldade em entender como é possível alguém ser como eu. Ela, que toda a vida teve um rumo absolutamente definido, que apenas conheceu comigo aquela parte da vida que acontece quando ninguém está a olhar, para quem o conceito de mal é para mim o de normalidade, teve o azar de se apaixonar por mim, de se deixar seduzir pelo Zé que eu gostaria de ser e acabou por casar com o Zé que eu, afinal, sou.
Não tem sido fácil para ela e, em boa verdade, não tem sido fácil para mim saber que não tem sido fácil para ela. É que a sinceridade que coloco numa folha de papel é justamente aquela que eu coloca na minha vida afectiva: eu amo a minha mulher com tudo o que sou. Sou é pouco quando comparado com o que deveria ser. E com o que seria, se me fosse permitido escolher.
Quando por vezes discutimos - é algo que fazemos desde sempre - digo-lhe que conheço montes de mulheres que gostariam de estar no seu lugar, que fariam tudo para serem adoradas, idolatradas, beijadas, amadas quase até ao desespero como ela é. Claro que esta afirmação é mais voltada para mim: o que estou a dizer é que eu próprio gostaria de ser adorado, idolatrado, beijado e amado quase até ao desespero por ela. Mas não sou.
A minha dificuldade, aliás, é outra, prende-se mais com a dificuldade em expressar de forma capaz tudo aquilo que cá por dentro se vai agitando em cada momento.
Se matéria para escrever não falta, o mesmo já não pode ser dito em termos de coerência. Frequentemente escrevo sem pensar muito - tal como tudo o que de melhor faço na vida - sem mastigar, fazendo da minha cabeça não mais que uma mera caixa de ressonância onde nada é produzido e que outro papel não tem senão o de ser ponto de passagem da alma,que é onde tudo verdadeiramente acontece.
O curioso é que isto mesmo que eu acabei de escrever, sendo absolutamente verdade nesta altura - na escrita, pelo menos na escrita, não costumo mentir - pode ser absolutamente desmentido numa qualquer outra altura. Basta que esteja com uma outra disposição, que tenha acordado para outro lado, ou que me sinta verdadeiramente entusiasmado pela cor do céu. Ou por um sorriso.
Esta minha proverbial falta de consistência - de rumo? - já me meteu em trabalhos por algumas vezes. Até porque, para a compensar, escolhi para amar uma mulher extraordinária, com enormes capacidades, com enormes certezas de vida, e com enorme dificuldade em entender como é possível alguém ser como eu. Ela, que toda a vida teve um rumo absolutamente definido, que apenas conheceu comigo aquela parte da vida que acontece quando ninguém está a olhar, para quem o conceito de mal é para mim o de normalidade, teve o azar de se apaixonar por mim, de se deixar seduzir pelo Zé que eu gostaria de ser e acabou por casar com o Zé que eu, afinal, sou.
Não tem sido fácil para ela e, em boa verdade, não tem sido fácil para mim saber que não tem sido fácil para ela. É que a sinceridade que coloco numa folha de papel é justamente aquela que eu coloca na minha vida afectiva: eu amo a minha mulher com tudo o que sou. Sou é pouco quando comparado com o que deveria ser. E com o que seria, se me fosse permitido escolher.
Quando por vezes discutimos - é algo que fazemos desde sempre - digo-lhe que conheço montes de mulheres que gostariam de estar no seu lugar, que fariam tudo para serem adoradas, idolatradas, beijadas, amadas quase até ao desespero como ela é. Claro que esta afirmação é mais voltada para mim: o que estou a dizer é que eu próprio gostaria de ser adorado, idolatrado, beijado e amado quase até ao desespero por ela. Mas não sou.