snippet from Refúgio de azul, 4/11/2010
Refúgio de azul, 4/11/2010
O céu como único refúgio de azul não compensa a falta do mar, "Deus ao mar o perigo e o abismo deu / Mas nele é que espelhou o céu" como dizia Pessoa, e assim, espelho do ceú, o mar tingia-se de azul nas manhas limpas de outono, verde no verão de rachar as pedras dos Dois Irmãos com o sol a pino, cinza nas tardes nubladas do inverno carioca, negro intenso como a engolir todo o espaço entre as estrelas em todas as noites. Olhar o mar à beira da praia, ao cair da tarde, para ver morrer em sangue o sol e a luz de outono, do sangue ao violeta, depois que o oceano imenso engolia, tragava para seus abismos de outro lado do mundo toda luz que antes brilhava alta no céu, do violeta ao negro profundo: céu e mar se encontravam em profundeza, horizonte indiviso, água e ar, os dois elementos reunidos numa mesma escuridão.

Enquanto aqui, à falta de sal e água, a terra terra terra não substitui essas profundezas de sono. De dia tudo é sol e céu alto. No cair da tarde, a solidão do horizonte mais ainda tinto de sangue, violeta e tudo escuro ao fim, sem a sutileza do oceano-espelho que me atraía, atração que era o apelo atávico de uns Santos e Abreus de além mar que, como tantos outros portugueses, não resistiram ao chamado do horizonte escuro, do espelho do céu, e aqui vieram ter há muito tempo... Há beleza nesse horizonte sanguíneo sertanejo. A explicação geográfica, a besta categórica científica também produz poesia: o tom vermelho do céu deve-se à refração dos raios solares ocasionada pelas partículas de terra em suspensão na atmosfera, alterando-se a frequência de propagação da luz, passa-se do azul ao vermelho, de ondas mais curtas e rápidas às ondas mais longas e lentas, esta desaceleração da luz, como a impressão do céu alto, são exemplos do que se chama efeito de continentalidade. Eu tinha outra explicação: o vermelho sangue refletia tanto sangue derramado nas conquistas do sertão. Casadas as duas explicações com a poesia que lhes corresponde eu diria que o efeito de continentalidade é a memória do sangue vertido. Afinal, nas partículas de terra em suspensão não subsite cada gotícula de sangue derramado? Como na água subterrânea não se infiltrou cada lágrima caída? Não grita e resiste no vermelho a morte matada e morrida de Caiapós, posseiros, bandeirantes, garimpeiros, fazendeiros, lavradores, toda a gente que ergueu ao céu alto do sertão suas preces por futuros? Insisto: na tarde vermelha de São José do Tijuco, onde curto meu exílio de mar e amores outros, resta a morte dos que elevaram ao céus do passado suas súplicas.

Amanhã o dia amanhecerá amarelo...

1

Is the story over... or just beginning?

you may politely request that the author write another page by clicking the button below...


This author has released some other pages from Refúgio de azul, 4/11/2010:

1  


Some friendly and constructive comments