O céu como único refúgio de azul não compensa a falta do mar, "Deus ao mar o perigo e o abismo deu / Mas nele é que espelhou o céu" como dizia Pessoa, e assim, espelho do ceú, o mar tingia-se de azul nas manhas limpas de outono, verde no verão de rachar as pedras dos Dois Irmãos com o sol a pino, cinza nas tardes nubladas do inverno carioca, negro intenso como a engolir todo o espaço entre as estrelas em todas as noites. Olhar o mar à beira da praia, ao cair da tarde, para ver morrer em sangue o sol e a luz de outono, do sangue ao violeta, depois que o oceano imenso engolia, tragava para seus abismos de outro lado do mundo toda luz que antes brilhava alta no céu, do violeta ao negro profundo: céu e mar se encontravam em profundeza, horizonte indiviso, água e ar, os dois elementos reunidos numa mesma escuridão.
Enquanto aqui, à falta de sal e água, a terra terra terra não substitui essas profundezas de sono. De dia tudo é sol e céu alto. No cair da tarde, a solidão do horizonte mais ainda tinto de sangue, violeta e tudo escuro ao fim, sem a sutileza do oceano-espelho que me atraía, atração que era o apelo atávico de uns Santos e Abreus de além mar que, como tantos outros portugueses, não resistiram ao chamado do horizonte escuro, do espelho do céu, e aqui vieram ter há muito tempo... Há beleza nesse horizonte sanguíneo sertanejo. A explicação geográfica, a besta categórica científica também produz poesia: o tom vermelho do céu deve-se à refração dos raios solares ocasionada pelas partículas de terra em suspensão na atmosfera, alterando-se a frequência de propagação da luz, passa-se do azul ao vermelho, de ondas mais curtas e rápidas às ondas mais longas e lentas, esta desaceleração da luz, como a impressão do céu alto, são exemplos do que se chama efeito de continentalidade. Eu tinha outra explicação: o vermelho sangue refletia tanto sangue derramado nas conquistas do sertão. Casadas as duas explicações com a poesia que lhes corresponde eu diria que o efeito de continentalidade é a memória do sangue vertido. Afinal, nas partículas de terra em suspensão não subsite cada gotícula de sangue derramado? Como na água subterrânea não se infiltrou cada lágrima caída? Não grita e resiste no vermelho a morte matada e morrida de Caiapós, posseiros, bandeirantes, garimpeiros, fazendeiros, lavradores, toda a gente que ergueu ao céu alto do sertão suas preces por futuros? Insisto: na tarde vermelha de São José do Tijuco, onde curto meu exílio de mar e amores outros, resta a morte dos que elevaram ao céus do passado suas súplicas.
Amanhã o dia amanhecerá amarelo...
Enquanto aqui, à falta de sal e água, a terra terra terra não substitui essas profundezas de sono. De dia tudo é sol e céu alto. No cair da tarde, a solidão do horizonte mais ainda tinto de sangue, violeta e tudo escuro ao fim, sem a sutileza do oceano-espelho que me atraía, atração que era o apelo atávico de uns Santos e Abreus de além mar que, como tantos outros portugueses, não resistiram ao chamado do horizonte escuro, do espelho do céu, e aqui vieram ter há muito tempo... Há beleza nesse horizonte sanguíneo sertanejo. A explicação geográfica, a besta categórica científica também produz poesia: o tom vermelho do céu deve-se à refração dos raios solares ocasionada pelas partículas de terra em suspensão na atmosfera, alterando-se a frequência de propagação da luz, passa-se do azul ao vermelho, de ondas mais curtas e rápidas às ondas mais longas e lentas, esta desaceleração da luz, como a impressão do céu alto, são exemplos do que se chama efeito de continentalidade. Eu tinha outra explicação: o vermelho sangue refletia tanto sangue derramado nas conquistas do sertão. Casadas as duas explicações com a poesia que lhes corresponde eu diria que o efeito de continentalidade é a memória do sangue vertido. Afinal, nas partículas de terra em suspensão não subsite cada gotícula de sangue derramado? Como na água subterrânea não se infiltrou cada lágrima caída? Não grita e resiste no vermelho a morte matada e morrida de Caiapós, posseiros, bandeirantes, garimpeiros, fazendeiros, lavradores, toda a gente que ergueu ao céu alto do sertão suas preces por futuros? Insisto: na tarde vermelha de São José do Tijuco, onde curto meu exílio de mar e amores outros, resta a morte dos que elevaram ao céus do passado suas súplicas.
Amanhã o dia amanhecerá amarelo...