Outra coisa me trás aqui hoje: vontade de nada dizer sobre o tempo, chuva, água, securas, distâncias, dizer nada desse mundo chão, terra, cão daqui do Brasil profundo. Outra coisa me mobiliza agora: é preciso, eu preciso escrever sobre São Paulo... Sobre a ascensão social consentida dos italianinhos e a mobilidade negada aos negros, nordestinos, aos sublaternos de sempre e aos recém ingressados no capitalismo brasileiro desde os anos de 1930. Curiosamente, a história é irônica muitas vezes, uma descendente de italianinho professa fragorosos preconceitos contra os nordestinos... Fez com que eu lembrasse Vivaldo Coaracy, carioca de nascimento, a tratar dos nortistas que ocuparam São Paulo depois de outubro de 1932: uma horda de bárbaros formada por jagunços de dentes limados, feras abatendo-se sobre sua presa generosa. Ou de Mário de Andrade, o turista aprendiz maior que a paulicéia, a dizer, num arroubo de paulistismo atávico, que a cada esquina uma carabina, atrás dela um gaúcho ou um cabeça-chata, a dizer "não pode"... E, mais tarde, em 1938, Guimarães Rosa criando em literatura a realidade de migração norte-sul, especialmente para São Paulo, estimulada pela demanda de mão de obra na lavoura paulista. No conto Duelo, Turíbio Todo acompanha o convite dos "baianos são-pauleiros" e parte para a terra onde "tcjhove denhero no tchão".
Nunca houve dois brasis, mostrou Chico de Oliveira mais tarde. Economicamente, São Paulo não seria se não tivesse, desde o início do impulso industrializante na década de 1930, uma resreva de mercado tão vasta quanto todo o Brasil daquele tempo e também depois. São Paulo não seria São Paulo se não fossem os nordestinos e outros brasileiros que, a um só tempo, compuseram a mão-de-obra da máquina de moer gente do gigante Pietro Petra e o público consumidor da produção paulista (paulista?). E nunca houve, politicamente, dois brasis igualmente: é decantada a noção de que a violência política e o coronelismo são fatos das regiões atrasadas. Por certo, era e é maior a permeabilidade destas formas de clientelismo em espaços econômicos onde a dependência patrão/cliente é mais arraigada. Mas ela está espalahada por todo o Brasil, e a elite paulista lutava, ainda na primeira metade do século XX, para assegurar o monopólio da violência legítima, e dos serviços do Estado, ao centro do sistema. Ademais, ainda como mostrou Chico de Oliveira, a primeira operação de salvação do Nordeste pelo Estado central com a criação da SUDENE foi capturada pelos políticos e homens de negócio do sul. É preciso ainda que se diga, a respeito do próprio governo FHC: apoiado com gosto e rendas pela elite do nordeste sustentada por redes clientelistas muito vastas e muito antigas.
Nunca houve dois brasis, mostrou Chico de Oliveira mais tarde. Economicamente, São Paulo não seria se não tivesse, desde o início do impulso industrializante na década de 1930, uma resreva de mercado tão vasta quanto todo o Brasil daquele tempo e também depois. São Paulo não seria São Paulo se não fossem os nordestinos e outros brasileiros que, a um só tempo, compuseram a mão-de-obra da máquina de moer gente do gigante Pietro Petra e o público consumidor da produção paulista (paulista?). E nunca houve, politicamente, dois brasis igualmente: é decantada a noção de que a violência política e o coronelismo são fatos das regiões atrasadas. Por certo, era e é maior a permeabilidade destas formas de clientelismo em espaços econômicos onde a dependência patrão/cliente é mais arraigada. Mas ela está espalahada por todo o Brasil, e a elite paulista lutava, ainda na primeira metade do século XX, para assegurar o monopólio da violência legítima, e dos serviços do Estado, ao centro do sistema. Ademais, ainda como mostrou Chico de Oliveira, a primeira operação de salvação do Nordeste pelo Estado central com a criação da SUDENE foi capturada pelos políticos e homens de negócio do sul. É preciso ainda que se diga, a respeito do próprio governo FHC: apoiado com gosto e rendas pela elite do nordeste sustentada por redes clientelistas muito vastas e muito antigas.